No trânsito, repudiamos o motorista que avança o sinal, fecha outro veículo ou corta a fila pelo acostamento. No ambiente profissional, criticamos o colega que entrega uma tarefa com desleixo ou transfere responsabilidades. Nas relações pessoais, ressentimo-nos da grosseria ou da indiferença alheia.
A indignação pode ser legítima. O problema começa quando usamos a falha que condenamos como justificativa para agir da mesma forma.
“Se todo mundo fura a fila, por que só eu vou esperar?”
“Se ele foi ríspido comigo, não tenho obrigação de ser educado.”
“Se o outro não cumpre a parte dele, não faz sentido eu cumprir a minha.”
Em um instante quase imperceptível, transformamos o erro alheio em um salvo-conduto para cometer o nosso.
O salvo-conduto invisível
Em sentido histórico, um salvo-conduto é uma autorização ou garantia de passagem. Nesta reflexão, a expressão funciona como metáfora para a justificativa que criamos para flexibilizar nossos próprios princípios quando alguém erra conosco.
Essa reação pode estar ligada à sensação de que, se mantivermos uma conduta correta diante de quem age mal, estaremos sendo ingênuos ou saindo em desvantagem. Para não nos sentirmos prejudicados, podemos optar por revidar ou nivelar o comportamento por baixo.
O erro alheio deixa de ser um exemplo do que devemos evitar e passa a funcionar como pretexto para a nossa própria atitude.
A falsa equivalência e o alívio da culpa
Às vezes, é difícil admitir que tomamos uma decisão ruim por impaciência, cansaço ou conveniência. Pode parecer mais confortável atribuir nossa atitude à provocação de outra pessoa ou às circunstâncias.
Quando usamos a falha de alguém como desculpa, conseguimos apresentar nossa escolha como uma reação inevitável, e não como algo pelo qual também somos responsáveis.
O erro de alguém nunca transforma o nosso em acerto. A injustiça que sofremos pode explicar nossa indignação, mas não torna automaticamente justa a maneira como decidimos reagir.
Essa equivalência, no entanto, é ilusória. Uma fechada no trânsito não torna seguro fechar o motorista seguinte. A hostilidade de alguém não transforma nossa agressividade em lucidez. Duas atitudes equivocadas não restabelecem a ordem; podem apenas ampliar o conflito.
O teste da integridade
É relativamente simples praticar bons princípios em ambientes cooperativos, nos quais as pessoas respeitam os limites e a reciprocidade parece natural. O desafio aparece quando temos uma justificativa conveniente para agir de maneira diferente.
O verdadeiro teste da convivência não está apenas em apontar quem falhou, mas em sustentar nossos próprios princípios quando a conduta ao redor parece desmoronar.
Quando permitimos que o comportamento alheio determine nossa resposta, corremos o risco de nos tornar puramente reativos: alguém age de maneira inadequada e nós apenas espelhamos o gesto, transferindo para o outro parte do controle sobre nossas escolhas.
Isso não significa que devemos aceitar abusos, tolerar desrespeito ou permanecer em situações prejudiciais. Estabelecer limites, exigir respeito e buscar reparação são atitudes legítimas. Existe, porém, uma diferença entre defender nossos limites com firmeza e reproduzir a conduta que criticamos apenas para devolver na mesma moeda.
Uma pergunta que vale a pena fazer
Nenhum de nós está livre de justificar as próprias falhas. Em maior ou menor grau, todos podemos encontrar razões para minimizar nossas atitudes quando acreditamos ter sido prejudicados primeiro.
Reconhecer esse impulso não exige perfeição. Exige disposição para examinar honestamente nossas escolhas, inclusive nos momentos em que estamos magoados, frustrados ou com raiva.
Da próxima vez que surgir o pensamento “mas ele também fez”, vale fazer uma pausa e perguntar:
Se preciso agir da mesma forma que critico para não me sentir em desvantagem, quem realmente está no controle das minhas decisões?
Talvez a resposta seja o primeiro passo para recuperar a coerência que tantas vezes cobramos dos outros.
Lendo e Refletindo — Histórias que nos fazem pensar. Reflexões que nos transformam.



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